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Ariano me libertou

27 jul

Eu até podia saber a resposta, mas quando a professora fazia alguma pergunta para a classe, eu dava um jeito de escorregar na carteira para fugir da possibilidade de ser o meu nome o eleito para responder. Ganhar a atenção de todos os meus colegas de uma só vez era assustador para mim. Preferia fingir que não tinha estudado a matéria.

Na mesma época, minha mãe dizia que eu me escondia atrás dos óculos que fui obrigada a usar quando passei a colar a cabeça na TV para assistir aos filmes que tanto amava. Não enxergava as legendas. Era miopia.

Se minha beleza estava escondida atrás das lentes pouco me importava. A verdade é que os óculos disfarçavam de inteligência o pavor que eu sentia diante de qualquer público. Era um alívio pensar que as pessoas os viam primeiro. Depois enxergavam a mim.

Foi, então, que o Ariano me libertou.

No recreio, ouvi duas amigas falando sobre o curso de teatro que fariam. Descobri que era perto de casa, aos sábados, e a mensalidade era 30 reais. E lá fui eu enfrentar o pavor de plateia que carregava há 14 anos.

Foi no pequeno palco improvisado nos fundos da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na Vila Formosa, que descobri que nem todos os personagens serão aplaudidos de pé quando o espetáculo terminar. Ainda assim, eles estão lá, vivos, seguindo sempre em frente. É assim na vida também.

Quando o semestre acabou, o professor dividiu a sala em grupos. Cada um montaria uma peça.

Devo ter usado um lençol velho de minha mãe para viver a Compadecida. E, acredite, no grande dia da estreia do nosso “Auto”, minha maior preocupação era com a mesa na qual eu tinha que subir para salvar João Grilo. Mas, se ela quebrasse bem na minha cena, eu estava pronta para improvisar palavras que substituiriam por sorrisos a preocupação espalhada pelo teatro lotado. É assim na vida também, não?

E na semana em que tantos provaram a importância deste autor, deixo nesta passagem de minha adolescência meu sincero agradecimento ao Ariano que, sim, me libertou!