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Genesis

30 dez

Eu estava há quase cinco dias sem tomar banho quando conheci a Genesis. Explico: decidi usar parte de meu período de férias, em julho deste ano, para atravessar a Bolívia de ônibus. Passei por Copacabana, na fronteira com o Peru, La Paz, Potosí, Sucre e Uyuni, onde gastei cerca de R$ 200 para ter meu nome entre os aventureiros que cruzariam o famoso Deserto de Sal boliviano em um tour de três dias. Mas banho não estava no preço. Simplesmente porque, bem no meio do deserto, o céu se junta com o sal e, no caminho, não há luz, nem água. E faz muito frio: 18 graus negativos.

O fim desta aventura (que ganhará um post muito em breve) é na divisa da Bolívia com o Chile, bem ali onde começa o Deserto do Atacama, onde também não tive a sorte de encontrar água quente, uma cama limpinha para dormir e um clima que ultrapassasse os 10 graus negativos. Resultado: mais dois dias sem banho.

No limite do meu cansaço físico e de minha sujeira, usei R$ 180 para comprar uma passagem para Santiago. A distância entre San Pedro de Atacama e a capital chilena é de 1,5 mil quilômetros e o tempo necessário para percorrê-la é de 25 horas. E foi assim que eu conheci a Genesis.

Fiz uma prece na esperança de que o ônibus estivesse vazio e não precisasse dividir o banco com ninguém. Nao por antipatia, mas porque estava com vergonha de meu estado precário. Quando a terra, o sal e a poeira transformaram meu cabelo numa estrutura sem qualquer possibilidade de movimento, tentei usar uma presilha para prender os fios num coque alto. Ela quebrou. O jeito foi usar um elástico que, mais tarde, tive que cortar para sair da minha cabeça. Minhas botas e minha calça jeans estavam carregadas de lama e terra, assim como minhas unhas. As bochechas e o nariz queimados de frio só pioravam minha aparência. E eu senti nojo de mim. E (muita) vergonha da Genesis.

Ela parou na direção do meu banco, olhou e sentou. E para minha surpresa, não dividiria o banco com uma, mas sim com duas pessoas. Ela estava grávida. Uma destas moças que tem a sorte de engravidar só na barriga. Braços, pernas e rosto de menina guardando no ventre um bebê. E, de repente, meus olhos encontraram os de Genesis. E ela me cumprimentou.

E perguntou de onde eu era. E perguntou o que eu fazia ali sozinha, de onde eu vinha, para onde ia. E perguntou sobre minha família, meu trabalho, meus amigos, minha viagem de férias, meus amores, meu futuro, minha cidade. E tão de repente quanto nos cruzamos, dividimos 25 horas de nossas vidas.

Só o rosto era de menina. Genesis tinha passado dos 30 anos e o bebê que carregava era do marido. Músico, ele estava em turnê pelo Chile e não pode acompanhá-la na viagem de visita a uma parte de família, em San Pedro. A altitude e a temperatura fizeram com que ela passasse mal e, por indicação médica, estava voltando a Santiago. Estava de oito meses de gestação e arriscou a viagem sozinha. “Melhor passar mal e chegar em Santiago do que passar mal e ter que ficar por lá”, explicou.

Pedi, então, que me chamasse caso precisasse de ajuda ou sentisse dor. Ela gostou e sorriu. Depois, ficou à vontade, tirou o tênis, soltou os cabelos cacheados e aproveitou para abrir o botão da calça que apertava a barriga. Não usava roupas de grávida. E achou interessante o fato de eu ser jornalista e trabalhar na TV, de falar um espanhol engraçado e não ter um marido aos 27 anos. “Achei que os homens do Brasil fossem bacanas”, disse.

Expliquei que gente interessante não faltava no meu país, mas que a sorte de um amor dependia (também) do destino cruzar nossos caminhos. E minha avenida principal andava meio interditada! Ela não entendeu, mas achou bonito.

Contou que havia começado a faculdade de Turismo, mas não gostou. “Nao sabia que teria tanta História e não gosto muito de passado”. Foi trabalhar em uma loja de roupas femininas. “Mas eu sou sincera. Se fica feio, eu digo”, contou quando perguntei sobre a vaidade das chilenas.

Genesis fez uma dúzia de ligações no meio do caminho. E avisou a mãe que estava comigo. “Uma menina do Brasil está do meu lado, me ajudando”. E aceitou todas as vezes em que ofereci bolachas ou balas. Dormiu (bem) pouco. Falou comigo até quando eu estava com fones no ouvido. E deu uma grande mancada para, horas mais tarde, (re)conquistar meu coração.

A mancada: Em 25 horas de jornada, o ônibus fez cerca de 10 paradas. Em apenas uma delas foi liberada a descida de passageiros. E eu, que odeio banheiro de ônibus, aproveitei para fazer xixi sem me preocupar com freadas. Genesis resolveu ficar no veículo. Então, deixei no banco, já que ela não sairia dali, minha mochila com câmera fotográfica, MP3 Player, celular e documentos como passagens e reservas de hotéis. Dez minutos depois estava Genesis do meu lado, numa fila para comprar um destes salgados oleosos de rodoviária. Meu coração gelou. “Resolvi descer para esticar as pernas”. “E minhas coisas? Deixou lá?”. Arregalou os olhos e puxou os cabelos. “Puxaaa, esqueci sua mochila”. “Não acredito”, disse em português. Saí da fila e fui procurar o ônibus. Ela veio atrás de mim. E o ônibus não estava mais lá. Genesis fez cara de pavor. Perguntei a um funcionário sobre o ônibus. Ele contou que o veículo tinha deixado a garagem para buscar novo passageiros, mas que voltaria para o mesmo lugar. Era só esperar. Eu esqueci o xixi, o salgado e fiquei esperando.

A conquista: o silêncio entre a gente só foi embora quando lembrei que teria que procurar um hotel para passar duas noites quando chegasse a Santiago. E Genesis encontrou aí o momento de conquistar meu coração para sempre. Liguei para casa e pedi que meu pai buscasse na internet alguns nomes de hoteis. Chegando lá, eu arrastaria minha mala pela cidade em busca de um com boa localização e preço acessível. De prefrência, com água nas torneiras. Anotei nome e endereço de alguns e Genesis se ofereceu para ligar e perguntar sobre os preços das diárias. “Meu celular não liga para o Chile”, expliquei. “Mas o meu liga. vai me falando os telefones”. E assim me ajudou a encontrar dois bons hoteis no centro da cidade. Acabei ficando em um deles.

O ônibus foi esvaziando ao longo do caminho. E várias das poltronas ao nosso lado ficaram disponíveis. Pensei que, em algum momento, Genesis levantaria e procuraria um banco para sentar sozinha, esticar suas pernas, fazer suas ligações tranquilamente.

Mas Genesis não combinava com a solidão.

Vinte e cinco horas mais tarde, cheguei a Santiago. Eu, minha mala, meu cansaço, minha sujeira. E Genesis ao meu lado.

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Sufoco

9 set

Risquei duas vezes Potosí do meu roteiro de viagem. A única referência que eu tinha da cidade vinha de um senhor que a havia visitado há dois anos, na companhia da esposa. E a descrição dele não era nada animadora: “tão feia, tão cinza, tão suja e perigosa que chega a sufocar”.

Mas eu fui. Não pelo perigo, mas pela história do lugar.
E encontrei, sim, uma cidade sufocante.

potosi01Centro de Potosí

O termômetro da praça principal marcava dois graus negativos quando cheguei, no dia 7 de julho, um domingo. Caía uma garoa suficiente para molhar a roupa e deixar a terra fina que cobria as ruas sujar as botas. Meu nariz escorria o dia todo há algum tempo, já estava acostumada. Mas em Potosí, este lugar que a Bolívia guarda a quatro mil metros de altura, o nariz simplesmente desistiu de escorrer água. Passou a escorrer sangue. Sangue sufocante.

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Potosí

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Potosí

Perguntei para o dono da agência se o “passeio” oferecia algum risco para os turistas. Na tentativa de me arrancar 40 bolivianos e incluir meu nome na lista dos aventureiros que poderiam deixar a vida enterrada em Potosí, ele disse que não. Fingi que acreditei e combinamos a saída dali para às 8hs da manhã do dia seguinte. E enquanto eu escondia o troco no bolso ele pediu: “por favor, não comente quanto você pagou por este passeio com outras pessoas. Fiz um preço especial para você”. A gentileza me obrigou a rodar na cidade para encontrar outra agência que promovia o mesmo passeio, só para perguntar o preço.

Descobri que o desconto havia sido de 10 bolivianos. Cada boliviano equivale a R$ 0,33 e fui dormir feliz por ter economizado R$ 3,30 num passeio que poderia ser o último da minha vida.

E dormir em Potosí é como ser assaltado na esquina ou ganhar na loteria ou descobrir que perdeu o emprego ou ganhou um novo amor. O coração bate forte no peito. A cabeça gira, a garganta seca, as mãos suam. E o tempo passa devagar. Vivi segundos como se fossem horas. E o corpo fica cansado de tanta emoção, de tanto sufoco. É assim o “mal da altitude”.

Ainda em São Paulo, eu havia decidido não fazer o tour às minas de Potosí. Lembra do senhor que citei no começo do texto? Ele disse que o passeio era extremamente perigoso. Para mulheres, então, o risco dobrava. Sozinhas não deveriam nem pensar nesta possibilidade.

Mas eu fui. Não pelo perigo, mas pela história do lugar.
E foi assim que eu conheci a Soledade.

Ela me obrigou a enfiar uma folha de coca na boca e mascar como chiclete. Eu estava desde o dia 26 do mês anterior, quando cheguei a Cusco, no Peru, tomando chá de coca. Mas, segundo a boliviana, só a folha poderia me livrar de um desmaio repentino no interior da mina. E descobri que a folha de coca estava bem longe de ser um chiclete. É amarga e faz a língua adormecer, mas acelera os batimentos cardíacos e facilita a respiração. É um alívio rápido.

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Soledade oferece folha de coca

Com ar de autoridade, ela sugeriu ainda que o grupo tomasse um gole de uísque. Ela chamava de “uísque” uma bebida com 98% de álcool que levava numa garrafa plástica. Eu, que não bebo nem refrigerante, achei melhor não arriscar. O desmaio me pareceu muito mais sensato do que tudo o que um gole daquela bebida poderia provocar. Não tomei.

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Uma moça da excursão topa o desafio de tomar o “uísque”

Aposto que as chances de você, leitor, ter visitado a Europa são muito maiores do que as de ter visitado Potosí. Então, explico brevemente: a cidade que hoje parece despencar em ruínas e abriga um povo muito simples, que passa até fome e morre muito cedo, já foi uma das mais ricas do mundo.

É de Cerro Rico, uma montanha localizada em Potosí a quase cinco mil metros acima do nível do mar, que saiu quase toda a prata que cobre as igrejas da Espanha. O comércio do mineral movimentou, desde 1545, os cofres espanhóis, mas a exploração deixou marcas profundas no desenvolvimento da cidade e principalmente de sua gente. E, hoje, Potosí vive as consequências deste tempo.

Prata quase não existe mais, mas, de acordo com Soledade, 16 mil pessoas arriscam suas vidas todos os dias e entram em Cerro Rico para procurar minerais que possam garantir o sustento da família no fim do mês. Num dia bom de trabalho, um mineiro ganha 100 bolivianos, o equivalente a pouco mais de 30 reais.

Estanho, chumbo e zinco estão entre os minérios mais cobiçados pelos bolivianos que trabalham em Cerro Rico desde que a prata praticamente desapareceu.

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Antes de entrar nas minas

Desde 1952, quando as minas da Bolívia foram nacionalizadas, as cooperativas se fortaleceram e passaram a ter papel fundamental na vida dos trabalhadores de Cerro Rico. Eles estão divididos em 45 cooperativas, que além de se encarregar da venda dos minérios de acordo com a cotação mundial, organizam a aposentadoria e garantem um seguro saúde para os mineiros. Os que não morrem em acidentes ou são soterrados ou despencam de grandes alturas, adquirem doenças incuráveis e costumam parar de trabalhar antes dos 40.

As minas estão abertas 24 horas, sete dias por semana, e os mineiros têm autonomia para fazer seus próprios horários de trabalho. A maioria trabalha nove horas por dia, de segunda a sábado. As chances de encontrar bons minérios para vender aumentam para os que decidem trabalhar em grupo. É comum encontrar mineiros trabalhando em bandos formados por filhos, primos, tios e amigos. O dinheiro arrecadado é dividido pela equipe. O problema é que um acidente mais sério costuma acabar com famílias inteiras.

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A equipe se prepara para entrar em uma mina

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Interior da mina

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Interior da mina

E foi com estes homens, que trabalham como bichos debaixo da terra, que eu vivi o verdadeiro sufoco de minha passagem por Potosí. Talvez, o maior de minha vida.

Os gases tóxicos tomam conta do ar no interior das minas. É impossível respirar. É escuro e o cheiro do sulfato de cobre dá muita tontura. Um peso imenso parece comprimir os pulmões e o único jeito de respirar é pela boca. Partículas de minérios cobrem a pele, nublam os olhos e transformam a experiência de visitar o interior de Cerro Rico em um pesadelo. Os corredores são infinitos, molhados, cheios de pedras que dificultam a caminhada. Alguns trechos só podem ser feitos por alguém que esteja disposto a dobrar os joelhos e caminhar “de quatro”.

Voltar não é possível. Ninguém quer ser o último da fila. Nem o primeiro.

Soledade vai andando, como se ninguém a estivesse seguindo. Mas para de repente no meio do caminho para dar alguma explicação que considera importante. Ela fala um inglês bastante básico também. Então, explica tudo duas vezes. E pergunta se alguém está pensando em desistir. Em um carrinho encostado no canto de corredor minúsculo deixa que escolhemos algum mineral para levar de recordação. Eu escolho uma pedra bem brilhante. Pequena.

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Interior da mina

Faz frio e calor no interior de Carro Rico. A temperatura da montanha varia entre -2 e 45 graus, dependendo do nível. Senti meus pés congelarem e, minutos depois, o corpo inteiro transpirar. O frio dá medo. O calor apavora. E a sensação é de algo muito grave pode acontecer a qualquer instante, a cada corredor que o tour avança para o interior da mina.

Não há placas de sinalização. Não há saídas de emergência. A impressão que tenho é de que a única proteção reservada ao interior do monte é a generosidade dos olhos de Deus.

E é justamente por isso que cada mineiro que adentra Cerro Rico faz uma oferenda ao “tio”, como é chamado o deus que protege os trabalhadores locais. Uma figura assustadora.

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El Tío: o deus que protege os mineiros

Os mineiros passam com carrinhos, sempre apressados, e ignoram nossa presença. Somos intrusos ali. Eles têm as bochechas saltadas e rosadas. Ao longo do dia, vão acumulando no interior da boca as folhas de coca mascadas, formando um grande bolo. A coca tira o cansaço e inibe a fome. Quem entra para trabalhar não tem direito a almoço, nem intervalo.

No rosto, eles levam a expressão de quem está de mal com a vida há muito tempo.

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Mineiros

Pouco mais de uma hora depois, avisto uma luz lá no fundo. E lembro de que estou viva e que existe um mundo fora de Cerro Rico. Sinto alívio ao deixar a montanha. Sinto o corpo dolorido e a cabeça latejar. Sinto pena daquela gente. Sinto o coração apertado de angústia.

No caminho de volta, o clima é de enterro na van que nos leva até o centro da cidade. Parece que perdemos um amigo em comum, muito querido. Silêncio absoluto. A moça ao meu lado tem os olhos cheios de lágrimas.

Enquanto tiramos as roupas emprestadas pela agência para o tour (bota, calça e casaco impermeáveis e capacete com lanterna), aproveito para fazer duas perguntas a Soledade. A primeira delas ela responde dizendo que também há mulheres trabalhando nas minas. “Mas costumam fazer um trabalho menos pesado, separam os minerais encontrados pelos homens”. Na segunda, mais complicada e reveladora, ela disfarça o incômodo e apenas sussurra: “Na Bolívia, não há diferenças entre adultos e crianças. Todos são trabalhadores”.

Encontro no casaco sujo de lama, água, gás e minérios a pedra brilhante que havia pegado no carrinho com a permissão de Soledade. Mas decido deixa-la por lá. De Cerro Rico e da sufocante Potosí eu já tinha guardado lembranças demais.

Gente que colecionei em Cerro Rico:

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A menina loirinha que está na foto comigo é a Sophie, de apenas 10 anos. Ela e o irmão encaram o “passeio” da mina com os pais. A família é de Washington, nos EUA, e decidiu visitar a Bolívia para mostrar aos pequenos uma realidade bastante diferente da deles. “Para eles valorizarem o que têm e crescerem”, explicou o pai quando eu perguntei sobre a viagem deles. A garotinha estava com o braço quebrado e confesso que fiquei um tanto aliviada quando vi que havia crianças no grupo. Mas o perigo era o mesmo para todos. A agência nos fez assinar um termo de responsabilidade por qualquer acidente que pudesse acontecer durante o tour. A mãe de Sophie, que tinha um sério problema respiratório, não conseguiu chegar ao fim da mina. As crianças seguiram com o pai e foram apelidadas de “las más fuertes” por Soledade. Espanha, Itália, Alemanha, México e Brasil eram os países de origem dos outros integrantes da “expedição” que jamais esquecerei.