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Não pode, Juliana

21 nov

Eu nem conseguia alcançar a pia da cozinha direito quando meu pai disse que, naquela noite, eu deveria lavar a louça do jantar. Ele fez questão de checar cada prato, cada talher, cada copo que eu colocava no escorredor. Ao mínimo sinal de sujeira ou gordura, a louça voltava para a pia e eu tinha que lavar de novo, até que estivesse tudo perfeito demais diante da minha pouca idade.

Meu pai não deixava minha irmã e eu entrarmos na bagunça nas festas de aniversário dos primos. Repetir comida na casa de estranhos não podia. Não podia espalhar brinquedos pela casa. Não podia fazer barulho. Não podia discordar, questionar ou interromper quem estivesse falando. Não podia usar os cabelos soltos ou sujar a roupa. Se perdesse ou estragasse, ficava sem. Não podia tirar nota baixa na escola, não podia ter preguiça, nem medo, nem frescura. Não podia chegar atrasada. Não podia ter vontade de escolher um Danone no mercado. Não podia ser criança.

Ganhei um pano para ajudar na limpeza pouco depois de aprender a andar. Aos domingos, eu ia à feira e lavava o quintal. Com 16 anos eu já trabalhava fora. Com 22, eu comecei a namorar e tinha que voltar até meia-noite para casa.

Demorei um tempo para entender que esta educação que recebi, e que já não cabe mais nos dias de hoje, me fez mais forte. Para mim, um “não” é apenas um incentivo para seguir em frente. Eu supero sempre, ao contrário dos tantos que, mimado por seus pais, fraquejam ou desistem diante do que é difícil.

E agradeço ao meu pai por me ensinar que não fui e nunca serei melhor do que ninguém. Por me mostrar que nada cai do céu. Por me fazer ouvir mais do que falar e a respeitar o espaço e o limite do outro. Por me mostrar a importância de pensar no futuro e saber que o que se tem pode, a qualquer momento, ir embora.

Por ser o responsável por este meu jeito sério de seguir a vida, porém que me abre portas, onde e com quer que eu esteja.

Obrigada, pai, por cada “não”. Por cada prato que eu tive que lavar de novo. E, principalmente, por ficar ao meu lado até que eu terminasse a louça toda.

Obrigada pela fé que tenho em mim. Te amo! Feliz 55 anos.

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Em 1992

Maio despedaçado

25 maio

Um dia, talvez, você reclame de algo que deu errado, do tempo sempre apressado, da falta de uma roupa nova para vestir no fim de semana. Talvez você reclame do excesso de cuidado dos seus pais, das cobranças do seu chefe, das manhãs chuvosas de segunda no ponto de ônibus. Do garçom atrapalhado, dos sonhos não realizados, das noites sem luar. Talvez você tenha medo do desconhecido. Ou do escuro.

Para Luíza

Não foi chegar em maio de 2015 para trabalhar como em maio dos anos anteriores.

Os médicos diziam que nada mais poderia ser feito por você. Imaginei, então, que nossa família seria destas escolhidas pela vida para receber criaturas passageiras. Anjos que chegam e já estão de saída. Aparecem em meia dúzia de fotos e vão embora, deixando saudade, dúvidas e corações partidos.

Porém, muito maior do que a vida é a fé. E este texto, fique tranquila, não é sobre Deus e religião. É sobre crença e milagre.

Gente que nunca vimos na vida rezou para que você ficasse. Primos, tios, irmãos, amigos de amigos dos nossos grandes amigos. Gente distante, que mora em outra cidade, outro estado, outro país. Gente pequena e gente grande. Gente comum e gente importante. Gente que acredita em santo, em espírito, em astros, em caboclos e pretos velhos.
Gente que não acredita em nada. Dezenas, centenas, milhares de pessoas por aí dividiram com seus pais e avós o pedido para que você, tão pequenina, vivesse.

E seu coração, já parado, voltou a bater.

Estas palavras são para que jamais esqueça a luta deste verdadeiro exército por você. Sua vida é (e sempre será) um pouco nossa também. Destes que não estarão na sua próxima festa de aniversário, na sua formatura da faculdade ou no seu casamento, de muitos que nunca vão cruzar seu caminho ou te dar um abraço, mas que vivem dentro de você.

Pelo nosso amor, por esta batalha de tantos pela sua vida, é que espero que faça deste tempo (não importa quantos pares de meses ou anos ou décadas) que ganhou de presente dos céus a nosso pedido uma oportunidade de ser luz. Que aproveite intensamente os seus dias. Que seja como estes que sonham quando nada mais é possível, destes que cantam e dançam como se ninguém tivesse olhando. Destes que estão sempre disponíveis ao acaso, destes que amam sem medo e recomeçam quantas vezes for preciso, destes que lutam pelos outros porque querer para si é pequeno e fácil. Destes que desejam sempre mais e que tecem com brilho os segundos de um dia qualquer. Que abraçam e beijam até cansar. Destes que pecam pelo excesso, que questionam, que incomodam, que sobem e descem as escadas pulando degraus, pulando problemas. Porque a vida é um sopro.

Um dia, talvez, você tenha medo do desconhecido. Ou do escuro.

Neste dia, lembre-se de que já morreu. Nada disso importa, Luíza.
Apenas viva. Por mim, por nós, por você.

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Com João Victor e Rafaela, seus irmãos, no dia em que você voltou para casa, após este “maio despedaçado” de 2015.

Rafaela, 2 anos

14 nov

Rafa, entre as coisas mais bonitas desta vida estão as lembranças. Momentos que por algum motivo ficam guardados. Alegrias, conquistas, situações, cores, cheiros e sabores. Lugares. Pessoas. Encontros ou despedidas. Recordar é como separar do texto a frase mais especial. É comprovar: “isso foi muito importante”. Lembranças desafiam o tempo e algumas permanecem porque estão vivas dentro da gente, na nossa mente e, principalmente, no nosso coração.

Outras coisas, não menos importantes, se perdem no meio do caminho. E hoje escolhi falar sobre elas.

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Você chamou sua mãe de “Ma” durante muito tempo. “Ma” de Mariana porque é assim que a gente a chama. Vó, Vô e Pai vieram na sequência. O João era “bebê”. Estes dias, você chamou seu irmão pelo nome: “Ju Ão”. Eu era a “Me”. “Ju” surgiu há pouco tempo também, durante um café da tarde num domingo aqui em casa. Fizemos tanta festa que você gostou e hoje diz pra todo mundo que o SEU nome é “Ju”. Quando perguntam “Rafa, como você chama?”. Você responde: “Ju”. Um orgulho pra mim!

Quando você vem aqui em casa a primeira coisa que você faz é ir até a sala e pegar um BIS na bomboniere da vó. Um só não. Vários! Você adora. Depois, você abre o armário de DVDs e pega o “parabéns” (o vídeo da sua festa de um ano). Toda vez que o filme começa, você aplaude e fica muito feliz. Você ama filmes. Entre os preferidos estão o “Monstros SA” (que você chama de Boo) e o “Frozen”. Dos desenhos animados, você gosta da “Galinha Pintadinha” (que você chama de “Popó”), a Pepa Pig (a “Pé”) e o Cocoricó (o “Cocó”).

Puxou para os seus pais e adora carros. Você gosta de abrir a porta do meu no quintal e sentar na direção para brincar. Você toca a buzina e troca a marcha. Você mexe no rádio. Você gosta de ir a concessionárias.

Você adora batata-frita, pizza, queijo, carne e café. Pipoca, salgadinho, bolacha (você come só o recheio) e M&Ms. Quando a gente passa em frente ao Mc Donald’s você aponta e fala “qué”. A mesma coisa você faz com o parque Ceret (onde você adora brincar) e o Shop. Anália Franco (onde estava uma exposição de dinossauros na qual você ficou viciada). Dinossauro, aliás, você chama de “au-au”.

Você adora qualquer bicho e não tem nenhum medo.

Escuro é “curo”. Abre é “abi”. É meu é “é mi”. Dinheiro é “dim-dim”.

Você sempre diz “não” para as coisas que não quer. E faz as coisas que quer. Nunca disse “sim”. Você é impaciente e faz drama quando contrariada. Drama destes bem feitos, de chorar e se jogar no chão, feito atriz de novela mexicana.

Embora sua mãe se esforce para que você pareça uma boneca, você gosta de ficar descalça e descabelada. Quase sempre está com a roupa suja porque derrubou comida ou mexeu em algo que não devia. Você apronta muito e deixa sua mãe louca. Não só a mãe. Todos nós.

Logo que aprendeu a andar, mexeu na minha bolsa, pegou meu celular e jogou pela sacada. Foi seu pai quem viu, mas não deu tempo de impedir. Depois veio a mania de guardar comida na bolsa de quem estivesse na sua casa. Eu vivia encontrando salgadinho, bolacha e pão de queijo nas minhas coisas. Hoje você abre a geladeira para pegar arroz e feijão direto das panelas. Outro dia foi a pizza de frango que apareceu sem a cobertura de catupiry e sem azeitonas. Eu perguntei se você havia comido pizza na geladeira. Você disse que sim. Perguntei sobre o caturipy. Você disse que não.

Numa destas “boquinhas” você descobriu que a geladeira também é uma boa para os dias mais quentes. Se está muito calor, você puxa a gaveta e fica lá dentro, sentada. Ou ainda guarda seus brinquedos.

Fogos na rua é motivo pra gritar “gol”: coisa que você aprendeu durante a Copa deste ano. E barulho de avião é para dar tchau para o céu.

Na hora do banho você pede pra lavar o “bu-bu”, seu bumbum. Xixi, cocô e pum você nunca confundiu. Quando avisa, é porque fez. Quando alguém vai ao banheiro, gosta de ir junto para dar o papel higiênico e lavar as mãos. Você adora mexer na água.

Para dormir, é sempre o mesmo ritual: cocói (o boneco de pano que você arrasta para todos os lugares), peta (a chupeta) e tetê (o leite na mamadeira). Você imita barulho de ronco e é muito engraçado. Se não está com sono, só avisa: “mimi não”.

Você gosta de mexer no computador para ver desenho no Youtube e sabe tudo do iphone da mãe. Você adora crianças e todas elas, independente da idade, você chama de “nenê”.

Você samba no pé (a vó te ensinou a dançar como a Globeleza quando a Rede Globo começou a exibir as vinhetas de Carnaval este ano) e gira feito louca quando está feliz. Você adora música alta e ri até ficar sem fôlego. E é contagiante.

Você pede “có” (colo), dá abraço e seu beijo é só um barulho com os lábios difícil de reproduzir. Um estalo com a língua que só você sabe fazer.

Há dois anos não sabemos o que é um almoço de domingo tranquilo. E seus pais são conhecidos em vários lugares por causa de suas travessuras. Você já vomitou em restaurante chique e fez alvoroço na Cepam, uma padaria gigante que tem aqui perto de casa. Você derruba todos os cabides quando entra na Riachuelo, na Renner ou na C&A e quase sempre cisma com uma bolsa ou uma peça de roupa que sua mãe acaba tendo que comprar.

Você tem um dente quebrado em formato de V porque mordeu uma chave tetra. Você também quebrou o videogame do seu pai e o DVD. Você comeu meu batom e teve dor de barriga.

Você abre e fecha o armário de comida o dia todo. Às vezes, só para olhar. Se a mãe pede para dividir a comida com o João você morde e dá a menor parte para ele. Ou enfia tanta comida na boca do garoto que ele engasga.

Aos dois anos, você pesa 15 quilos e está com 85 centímetros.

Entre travessuras e maluquices que se somam a cada dia, é uma grande alegria dividir o tempo com você.

Uma criança sempre sorridente, amorosa, sincera, “curíntia”, de bem com a vida e “topa tudo”. Que a vida lhe conserve sempre assim.

Abaixo, algumas lembranças “inusitadas” desta fase tão especial de sua infância:

Virando compra de supermercado:

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Banho de caneca:

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No bercinho da maternidade:

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De saco cheio:

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Nicolas, eu tenho uma ideia!

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Trabalhando no Teleton:

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Comendo com o saco mesmo:

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Odiando a fantasia de Minnie:

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Felizona no níver de um ano:

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Apenas sendo Rafaela:

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Usando a coleira para telefonar:

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Com a fraldona cheia. Sair da piscina jamais:

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Escondendo:

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Sensualizando:

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No batizado:

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Roubando docinhos antes do parabéns:

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Só causando:

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Garantindo uma lembrancinha antes que acabe:

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Na pia do banheiro da vó:

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Odiando a foto:

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Cansadona de tanto comer:

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De pijamão na festa:

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Causando no SESC Belém:

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Fazendo a atriz mexicana:

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Tomando perfume e estudando para o Mestrado:

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Mexendo mais um pouco:

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E de novo:

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Com a boca lotada de pipoca na peça de teatro:

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Felizona porque andou de metrô:

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Selfie:

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Estressada porque entalou no carrinho:

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Dando show:

20141018_174350Causando muito no batizado:


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Bisnaguinha com requeijão:

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De salto da mãe, empurrando o carrinho:

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Devorando a maçã do amor:

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Adorando carros:

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Escondida:

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Ariano me libertou

27 jul

Eu até podia saber a resposta, mas quando a professora fazia alguma pergunta para a classe, eu dava um jeito de escorregar na carteira para fugir da possibilidade de ser o meu nome o eleito para responder. Ganhar a atenção de todos os meus colegas de uma só vez era assustador para mim. Preferia fingir que não tinha estudado a matéria.

Na mesma época, minha mãe dizia que eu me escondia atrás dos óculos que fui obrigada a usar quando passei a colar a cabeça na TV para assistir aos filmes que tanto amava. Não enxergava as legendas. Era miopia.

Se minha beleza estava escondida atrás das lentes pouco me importava. A verdade é que os óculos disfarçavam de inteligência o pavor que eu sentia diante de qualquer público. Era um alívio pensar que as pessoas os viam primeiro. Depois enxergavam a mim.

Foi, então, que o Ariano me libertou.

No recreio, ouvi duas amigas falando sobre o curso de teatro que fariam. Descobri que era perto de casa, aos sábados, e a mensalidade era 30 reais. E lá fui eu enfrentar o pavor de plateia que carregava há 14 anos.

Foi no pequeno palco improvisado nos fundos da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na Vila Formosa, que descobri que nem todos os personagens serão aplaudidos de pé quando o espetáculo terminar. Ainda assim, eles estão lá, vivos, seguindo sempre em frente. É assim na vida também.

Quando o semestre acabou, o professor dividiu a sala em grupos. Cada um montaria uma peça.

Devo ter usado um lençol velho de minha mãe para viver a Compadecida. E, acredite, no grande dia da estreia do nosso “Auto”, minha maior preocupação era com a mesa na qual eu tinha que subir para salvar João Grilo. Mas, se ela quebrasse bem na minha cena, eu estava pronta para improvisar palavras que substituiriam por sorrisos a preocupação espalhada pelo teatro lotado. É assim na vida também, não?

E na semana em que tantos provaram a importância deste autor, deixo nesta passagem de minha adolescência meu sincero agradecimento ao Ariano que, sim, me libertou!

Genesis

30 dez

Eu estava há quase cinco dias sem tomar banho quando conheci a Genesis. Explico: decidi usar parte de meu período de férias, em julho deste ano, para atravessar a Bolívia de ônibus. Passei por Copacabana, na fronteira com o Peru, La Paz, Potosí, Sucre e Uyuni, onde gastei cerca de R$ 200 para ter meu nome entre os aventureiros que cruzariam o famoso Deserto de Sal boliviano em um tour de três dias. Mas banho não estava no preço. Simplesmente porque, bem no meio do deserto, o céu se junta com o sal e, no caminho, não há luz, nem água. E faz muito frio: 18 graus negativos.

O fim desta aventura (que ganhará um post muito em breve) é na divisa da Bolívia com o Chile, bem ali onde começa o Deserto do Atacama, onde também não tive a sorte de encontrar água quente, uma cama limpinha para dormir e um clima que ultrapassasse os 10 graus negativos. Resultado: mais dois dias sem banho.

No limite do meu cansaço físico e de minha sujeira, usei R$ 180 para comprar uma passagem para Santiago. A distância entre San Pedro de Atacama e a capital chilena é de 1,5 mil quilômetros e o tempo necessário para percorrê-la é de 25 horas. E foi assim que eu conheci a Genesis.

Fiz uma prece na esperança de que o ônibus estivesse vazio e não precisasse dividir o banco com ninguém. Nao por antipatia, mas porque estava com vergonha de meu estado precário. Quando a terra, o sal e a poeira transformaram meu cabelo numa estrutura sem qualquer possibilidade de movimento, tentei usar uma presilha para prender os fios num coque alto. Ela quebrou. O jeito foi usar um elástico que, mais tarde, tive que cortar para sair da minha cabeça. Minhas botas e minha calça jeans estavam carregadas de lama e terra, assim como minhas unhas. As bochechas e o nariz queimados de frio só pioravam minha aparência. E eu senti nojo de mim. E (muita) vergonha da Genesis.

Ela parou na direção do meu banco, olhou e sentou. E para minha surpresa, não dividiria o banco com uma, mas sim com duas pessoas. Ela estava grávida. Uma destas moças que tem a sorte de engravidar só na barriga. Braços, pernas e rosto de menina guardando no ventre um bebê. E, de repente, meus olhos encontraram os de Genesis. E ela me cumprimentou.

E perguntou de onde eu era. E perguntou o que eu fazia ali sozinha, de onde eu vinha, para onde ia. E perguntou sobre minha família, meu trabalho, meus amigos, minha viagem de férias, meus amores, meu futuro, minha cidade. E tão de repente quanto nos cruzamos, dividimos 25 horas de nossas vidas.

Só o rosto era de menina. Genesis tinha passado dos 30 anos e o bebê que carregava era do marido. Músico, ele estava em turnê pelo Chile e não pode acompanhá-la na viagem de visita a uma parte de família, em San Pedro. A altitude e a temperatura fizeram com que ela passasse mal e, por indicação médica, estava voltando a Santiago. Estava de oito meses de gestação e arriscou a viagem sozinha. “Melhor passar mal e chegar em Santiago do que passar mal e ter que ficar por lá”, explicou.

Pedi, então, que me chamasse caso precisasse de ajuda ou sentisse dor. Ela gostou e sorriu. Depois, ficou à vontade, tirou o tênis, soltou os cabelos cacheados e aproveitou para abrir o botão da calça que apertava a barriga. Não usava roupas de grávida. E achou interessante o fato de eu ser jornalista e trabalhar na TV, de falar um espanhol engraçado e não ter um marido aos 27 anos. “Achei que os homens do Brasil fossem bacanas”, disse.

Expliquei que gente interessante não faltava no meu país, mas que a sorte de um amor dependia (também) do destino cruzar nossos caminhos. E minha avenida principal andava meio interditada! Ela não entendeu, mas achou bonito.

Contou que havia começado a faculdade de Turismo, mas não gostou. “Nao sabia que teria tanta História e não gosto muito de passado”. Foi trabalhar em uma loja de roupas femininas. “Mas eu sou sincera. Se fica feio, eu digo”, contou quando perguntei sobre a vaidade das chilenas.

Genesis fez uma dúzia de ligações no meio do caminho. E avisou a mãe que estava comigo. “Uma menina do Brasil está do meu lado, me ajudando”. E aceitou todas as vezes em que ofereci bolachas ou balas. Dormiu (bem) pouco. Falou comigo até quando eu estava com fones no ouvido. E deu uma grande mancada para, horas mais tarde, (re)conquistar meu coração.

A mancada: Em 25 horas de jornada, o ônibus fez cerca de 10 paradas. Em apenas uma delas foi liberada a descida de passageiros. E eu, que odeio banheiro de ônibus, aproveitei para fazer xixi sem me preocupar com freadas. Genesis resolveu ficar no veículo. Então, deixei no banco, já que ela não sairia dali, minha mochila com câmera fotográfica, MP3 Player, celular e documentos como passagens e reservas de hotéis. Dez minutos depois estava Genesis do meu lado, numa fila para comprar um destes salgados oleosos de rodoviária. Meu coração gelou. “Resolvi descer para esticar as pernas”. “E minhas coisas? Deixou lá?”. Arregalou os olhos e puxou os cabelos. “Puxaaa, esqueci sua mochila”. “Não acredito”, disse em português. Saí da fila e fui procurar o ônibus. Ela veio atrás de mim. E o ônibus não estava mais lá. Genesis fez cara de pavor. Perguntei a um funcionário sobre o ônibus. Ele contou que o veículo tinha deixado a garagem para buscar novo passageiros, mas que voltaria para o mesmo lugar. Era só esperar. Eu esqueci o xixi, o salgado e fiquei esperando.

A conquista: o silêncio entre a gente só foi embora quando lembrei que teria que procurar um hotel para passar duas noites quando chegasse a Santiago. E Genesis encontrou aí o momento de conquistar meu coração para sempre. Liguei para casa e pedi que meu pai buscasse na internet alguns nomes de hoteis. Chegando lá, eu arrastaria minha mala pela cidade em busca de um com boa localização e preço acessível. De prefrência, com água nas torneiras. Anotei nome e endereço de alguns e Genesis se ofereceu para ligar e perguntar sobre os preços das diárias. “Meu celular não liga para o Chile”, expliquei. “Mas o meu liga. vai me falando os telefones”. E assim me ajudou a encontrar dois bons hoteis no centro da cidade. Acabei ficando em um deles.

O ônibus foi esvaziando ao longo do caminho. E várias das poltronas ao nosso lado ficaram disponíveis. Pensei que, em algum momento, Genesis levantaria e procuraria um banco para sentar sozinha, esticar suas pernas, fazer suas ligações tranquilamente.

Mas Genesis não combinava com a solidão.

Vinte e cinco horas mais tarde, cheguei a Santiago. Eu, minha mala, meu cansaço, minha sujeira. E Genesis ao meu lado.

Para Rafaela

12 nov

Rafaela me ligou estes dias. Pediu desculpas porque não veio em casa com o João Victor da última vez. Começou a trabalhar há pouco tempo e ainda não se acostumou com a rotina. Tinha exercícios da faculdade para terminar no domingo. Fico muito feliz que esteja gostando do curso. Puxou dos pais o gosto por trabalhar com cirurgias, mas optou por cuidar é da saúde dos bichos. Desde pequena gostava – e não tinha medo – dos animais. Uma pena a Nina ter morrido poucos dias antes dela nascer. Teria gostado de conhecer a cachorrinha que a mãe dela e eu tivemos na infância.

Ela também contou que está gostando de um novo rapaz. Para desespero do pai, Rafa namorou um menino, colega da escola, durante uns anos. Mas, com o tempo e o começo da faculdade, percebeu que já não tinham mais os mesmos interesses e decidiu que seriam só amigos. Ela ficou triste uns dias e depois saiu com as amigas para passear. Disse para ela que o primeiro pode não ser o mais bonito, nem o mais forte, nem o mais marcante. Mas é, talvez, o amor mais paciente.

Legal que tenha encontrado outro moço. O mundo está mesmo cheio de pessoas pelas quais podemos nos apaixonar, por diferentes motivos. Mas só algumas delas – bem poucas – terão a sorte de realmente cruzar nosso caminho e compartilhar nossas alegrias, nossas tristezas, dificuldades, conquistas. Nosso tempo. Chamam isso de acaso. Eu chamo de destino.

Também contou sobre a vontade de fazer uma viagem de formatura e o desejo de estudar um tempo no exterior. Ela ficou seis fora durante o colegial e adorou. Quer repetir a experiência. Eu disse que ela não deve deixar passar a oportunidade. Além de melhorar o currículo, é viajando que ela vai adquirir as maiores riquezas da vida.

Disse que estava com medo de largar tudo – a família, o emprego, a faculdade e o (novo) namorado – para fazer a viagem. “E quando eu voltar?”, me perguntou. É bom saber que a Rafaela pensa no futuro. Mas o tempo é amigo daqueles que arriscam em busca de algo melhor. “Quando voltar, tudo estará aqui, do mesmo jeito. Só que você vai estar diferente: muito melhor e mais preparada”, disse. O desconhecido assombra em qualquer idade.

Rafa, que sempre foi gordinha, anda com vontade de perder peso. Está linda, mas reclama das pernas e dos braços que ficam sempre apertados nas roupas. “Herdei da família da mãe”, brinca. A sorte dela é que nunca foi fã de doces. É bom que faça exercícios. Hoje já não há mais espaço para gente descuidada, que abusa da comida e dos vícios.

Ela me contou que está dirigindo melhor. Andou raspando o carro na garagem do apartamento e a mãe deu bronca. Mas ela não desistiu. Sai de fim de semana, vai até a casa dos avós e, quando sai cedo da faculdade, para aqui pra gente bater papo. Rafaela é engraçada, espontânea, decidida, esperta como a garotinha que, quando pequena, sacodia os dedinhos pedindo dinheiro para as visitas que apareciam lá em casa.

Rafa gosta de futebol e, contra a vontade do pai, começou a torcer para o Corinthians. Não é fanática, mas adora a bagunça das finais dos campeonatos e zombar o irmão, são-paulino doente. Tirando o time, Rafa sempre defendeu o João em tudo. A diferença entre eles, de apenas nove meses, foi sumindo ao longo do tempo. Para mim, sempre foi como se fossem gêmeos. Duas mamadeiras. Duas choradeiras.

Mas para a Rafa sempre foi como se ela fosse gigante, a única capaz de proteger o irmão. O primeiro bilhete que ganhou na agenda dizia que havia batido no garoto mais velho da classe. Depois explicou para a mãe: “ele mexeu com o João”. Rafaela hoje é guia e guarda do garoto que tanto sentiu ciúmes.

João retribui os cuidados da irmã com carinho, de um jeito que só eles entendem, no qual nem mesmo as palavras são necessárias. E é assim que sempre vai ser.

Rafaela não é de pintar as unhas, de arrumar os cabelos, de usar salto. Mas fica linda em ocasiões especiais, quando usa as roupas que a mãe ajudou a escolher e deixa em casa o jeito de menina.

E embora tenha escolhido trabalhar com os bichos, ela gosta de gente. Está sempre rodeada de amigos. Sempre foi a aluna querida da escola. Rafa é livre. Ouve o que a gente diz, mas faz do jeito que achar melhor. Depois assume que errou, pede desculpas e segue em frente. Recomeçar é virtude das mais importantes.

Mas, por enquanto, Rafaela é esta menina com meia dúzia de dentes na boca e que faz esforço para dar os primeiros passos sozinha.

E neste data especial, que marca seu primeiro ano de vida, desejo que nada do que escrevi acima faça o menor sentido e que ela tenha a coragem necessária para escrever uma história que seja só sua!

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Que você respeite os mais velhos e os seus limites. Que você respeite os mais jovens e as suas crenças. Que você respeite os que têm menos e os que têm muito. E perceba que é na diferença que está a beleza da vida.

Que você tenha sorte e que encontre pessoas de bem. Que você tenha muitos amigos, mas saiba que eles podem, um dia desses, ir embora. A família é para sempre.

Que você viaje bastante e conheça de perto o que está escrito nos livros. Que você tenha fé nas coisas que não pode ver, mas pode sentir. Que você entenda que nem tudo pode ser comprado e que as coisas mais legais do mundo não têm preço.

Que você sonhe com as estrelas, mas perceba que nem tudo é do jeito que a gente quer. Que você ganhe, mas saiba que conquistar é muito melhor. Que você cante, dance e torça. Que você vá para a rua lutar pelos seus direitos.

Que você ame e seja amada. Que você encontre alguém que te faça rir e com quem você tenha vontade de conversar todos os dias. Que você seja a melhor amiga do seu amor, pois namorados são amigos que se beijam. Com o tempo, é só isso. E isso é que é bom.

Que você trabalhe na profissão que escolher e que ganhe dinheiro suficiente. Nem mais, nem menos. Os ricos também têm problemas. Que você coma tudo o que tiver vontade, mas não deixe de cuidar da saúde.

Que você agradeça sempre. Aos seus pais e a Deus. E a todos aqueles que estiverem com você. Educação é indispensável no currículo. Que você aumente o som para dançar, mas saiba que a vida também precisa de um pouco de silêncio.

Que você estude bastante. Que você encontre respostas e novos caminhos. Que você lembre do passado para melhorar o futuro. Que saudade seja apenas para lembrar do que foi muito bom. Que o impossível seja apenas mais um desafio.

E que você siga o seu coração e acredite em você. Sempre.

Silvio Santos também quer dinheiro

27 out

Dilma Bolada ajuda Teleton a bater meta de R$ 26 milhões

 

* texto produzido para o blog “Fina Prensa” dos alunos do curso de pós-graduação do curso de “Mídia, Informação e Cultura” da ECA-USP

 

Para entrar no clima, Dilma aumentou o som e dançou Chiquititas no meio de uma sala no Palácio da Alvorada. Isso porque ela estaria na noite de 26 de outubro com o elenco da novela do SBT, participando do encerramento do Teleton 2013. E se você imaginou a presidenta deixando de lado toda sua seriedade para se acabar nos passinhos de “Mexe, mexe, mexe com as mãos. Mexe, mexe, mexe, mexe com os pés”, Jeferson Monteiro sorriu do outro lado da tela.

Aos 22 anos, o estudante de Publicidade que mora no Rio de Janeiro e (acredite!) diz que política é “algo muito chato”, é o criador do perfil Dilma Bolada. Com mais de 550 mil pessoas no Facebook e mais 160 mil seguidores no Twitter, Jef – como gosta de ser chamado – foi convidado pela produção do Teleton a integrar a bancada online da 16ª edição do evento que arrecada fundos para os projetos da AACD.

O programa, que consome 27 horas de programação ao vivo no SBT e movimenta centenas de profissionais, além de apresentadores, cantores e atores, teve como objetivo arrecadar R$ 26 milhões para a manutenção e ampliação de 16 hospitais que atendem crianças e adultos deficientes. Para alcançar a meta, a emissora decidiu pedir ajuda aos criadores dos perfis fakes de maior sucesso da web, entre eles a Dilma Bolada.

E Jef fez sua parte. #Teleton2013, #EuNoTeleton e #Teleton são apenas três das hashtags que ocuparam os TT’s (Trending Topics) durante todo o tempo que o programa esteve no ar. A presidenta, tão querida entre os internautas, avisou quem estava com a televisão desligada sobre a importância de doar e contribuir com o projeto.

Ivete Sangalo ficou descalça, dançou tango com Tiago Abravanel, cantou “a pipa do vovô não sobe mais” com Patricia, a filha do dono, e até prometeu em rede nacional: “Se batermos 26 milhões, dou um selinho no Silvio”. Jef, pelo contrário, ficou sentadinho no canto do palco. Quieto, enquanto conversava com milhares de pessoas ao mesmo tempo. Anônimo, enquanto é conhecido até pela presidenta Dilma (sim, a Rousseff). O moço todo poderoso da internet, que movimenta a criatividade na cabeça e os dedos no teclado.

Claro que não foi assim, mas se cada seguidor de Dilma Bolada tivesse doado o valor mínimo de R$ 5 ao Teleton, Jeferson, S-O-Z-I-N-H-O, teria arrecadado cerca de R$ 3,5 milhões para o projeto, prova de que o baú e o carisma de Silvio Santos já não fazem milagres sem a internet.

Veja os tweets da Dilma Bolada sobre o Teleton 2013:

Em 25 de outubro:

Dançando Chiquititas no meio da sala do Palácio da Alvorada… #Teleton

Depende de nós… ♫ #TeletonBrasil2013

Declaro oficialmente aberto o #TeletonBrasil2013!

Amanhã o @jeferson estará na bancada dos internautas me representando no #TeletonBrasil2013! DOEM!!!

Conselho: antes de irem pro ENEM, liguem para o #TeletonBrasil2013 e doem para ajudar a AACD! Deus ta vendo e eu também!

Doar 27 horas do SBT é pouco? Não seja ignorante RT @a_luizaa @diImabr pede pro Silvio Santos doar também arrecadar dinheiro do povo é fácil

Em 26 de outubro:

Poderosa… atrevida… ninguém se mete mais na minha vida… #TeletonBrasil2013

Vamos acompanhar o encerramento do #Teleton e doar porque país rico é país solidário!

Daqui a pouco, no #Teleton tem a Ivete junto com o Silvio no encerramento. E a Claudia sentada em casa assistindo, ligando e doando!

Gente, não vale pedir pro Eike doar. Se ligarem pra ele é capaz dele pedir as doações para as empresas dele… #Teleton

Pode usar o Bolsa Família pra doar pro #Teleton sim. Solidariedade se multiplica quando se compartilha! O que vale é ajudar.

A Patrícia Abravanel com um lindo vestido vermelho PT em minha homenagem… #Teleton

Silvio ficou + animado ao saber que vai ganhar um selinho da Ivete do que quando o SBT ganha a Globo na audiência. Assanhado! #EuNoTeleton

Ivete & Tim Maia ao vivo. Amodoro!!! #EuNoTeleton #Teleton

Engraçado, não doa 5 reais pro #Teleton e depois quer passar no ENEM. Gostam de moleza… não aguento com isso. Deus tá vendo! #EuNoTeleton

Riachuelo sambou na cara da C&A mão de vaca… #Teleton #EuNoTeleton

A Família do Silvio Santos parece Família Trakinas: todo mundo com a mesma cara… #Teleton #EuNoTeleton

Presidenta da AACD uniformizada. #VermelhoPT #Teleton #EuNoTeleton

Teleton sambando na cara da Globo… RT @tulio 00h51 SBT 10.8, Globo 7.5, Record 4.0.

HIPERCARD SAMBOU NA CARA DA CREDICARD E DA VISA!!! #TELETON

META BATIDA! DECRETO OFICIALMENTE ENCERRADO O TELETON 2013!

Abaixo, fotos postadas por Jeferson Monteiro durante o tempo em que esteve no Teleton:

Ivete Sangalo, Patricia e Tiago Abravanel posam para foto de Jaferson Monteiro

Ivete Sangalo, Patricia e Tiago Abravanel posam para foto de Jeferson Monteiro

Silvio Santos, Eliana, Patricia e Tiago Abravanel no palco do Teleton 2013

Silvio Santos, Eliana, Patricia e Tiago Abravanel no palco do Teleton 2013

Jeferson Monteiro com a equipe da bancada online do Teleton

Jeferson Monteiro com a equipe da bancada online do Teleton

Tema do programa

Tema do programa

Liminha avisando Silvio Santos para chamar Ivete Sangalo no palco

Liminha avisando Silvio Santos para chamar Ivete Sangalo no palco

Por Juliana Bacci