Não pode, Juliana

21 nov

Eu nem conseguia alcançar a pia da cozinha direito quando meu pai disse que, naquela noite, eu deveria lavar a louça do jantar. Ele fez questão de checar cada prato, cada talher, cada copo que eu colocava no escorredor. Ao mínimo sinal de sujeira ou gordura, a louça voltava para a pia e eu tinha que lavar de novo, até que estivesse tudo perfeito demais diante da minha pouca idade.

Meu pai não deixava minha irmã e eu entrarmos na bagunça nas festas de aniversário dos primos. Repetir comida na casa de estranhos não podia. Não podia espalhar brinquedos pela casa. Não podia fazer barulho. Não podia discordar, questionar ou interromper quem estivesse falando. Não podia usar os cabelos soltos ou sujar a roupa. Se perdesse ou estragasse, ficava sem. Não podia tirar nota baixa na escola, não podia ter preguiça, nem medo, nem frescura. Não podia chegar atrasada. Não podia ter vontade de escolher um Danone no mercado. Não podia ser criança.

Ganhei um pano para ajudar na limpeza pouco depois de aprender a andar. Aos domingos, eu ia à feira e lavava o quintal. Com 16 anos eu já trabalhava fora. Com 22, eu comecei a namorar e tinha que voltar até meia-noite para casa.

Demorei um tempo para entender que esta educação que recebi, e que já não cabe mais nos dias de hoje, me fez mais forte. Para mim, um “não” é apenas um incentivo para seguir em frente. Eu supero sempre, ao contrário dos tantos que, mimado por seus pais, fraquejam ou desistem diante do que é difícil.

E agradeço ao meu pai por me ensinar que não fui e nunca serei melhor do que ninguém. Por me mostrar que nada cai do céu. Por me fazer ouvir mais do que falar e a respeitar o espaço e o limite do outro. Por me mostrar a importância de pensar no futuro e saber que o que se tem pode, a qualquer momento, ir embora.

Por ser o responsável por este meu jeito sério de seguir a vida, porém que me abre portas, onde e com quer que eu esteja.

Obrigada, pai, por cada “não”. Por cada prato que eu tive que lavar de novo. E, principalmente, por ficar ao meu lado até que eu terminasse a louça toda.

Obrigada pela fé que tenho em mim. Te amo! Feliz 55 anos.

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Em 1992

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3 Respostas to “Não pode, Juliana”

  1. Cibelle Camargo Neves Marassatti novembro 21, 2015 às 10:51 am #

    Sempre uma delícia ler seus textos, Ju!!
    Um Feliz Aniversário pro Rubinho e os meus parabéns pela garota incrível que ele educou!!! Bjão!!!

  2. Maria Medeiros fevereiro 1, 2016 às 12:27 am #

    Oi, Juliana. Acabei de ler teu texto sobre a sobrevivência de 5 dias em NY com 100 dólares. Divertido, bem escrito, …. De lá, decido seguir o link e ver teu blog e dou “de cara” com esse texto, que explica muito sobre a pessoa de fibra que viveu aquela aventura e saiu no bom humor. Parabéns ao teu pai, que te deu essa educação e te tornou essa pessoa sensacional que tu pareces ser. Se tu não és escritora, deverias pensar a respeito. Já li muita crônica em jornal que está longe de chegar à qualidade das tuas. Parabéns pra ti, também. Abração.

  3. Silvio Yuki Gern Marin setembro 9, 2016 às 2:21 pm #

    Muito bom texto, só verdades.

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