Maio despedaçado

25 maio

Um dia, talvez, você reclame de algo que deu errado, do tempo sempre apressado, da falta de uma roupa nova para vestir no fim de semana. Talvez você reclame do excesso de cuidado dos seus pais, das cobranças do seu chefe, das manhãs chuvosas de segunda no ponto de ônibus. Do garçom atrapalhado, dos sonhos não realizados, das noites sem luar. Talvez você tenha medo do desconhecido. Ou do escuro.

Para Luíza

Não foi chegar em maio de 2015 para trabalhar como em maio dos anos anteriores.

Os médicos diziam que nada mais poderia ser feito por você. Imaginei, então, que nossa família seria destas escolhidas pela vida para receber criaturas passageiras. Anjos que chegam e já estão de saída. Aparecem em meia dúzia de fotos e vão embora, deixando saudade, dúvidas e corações partidos.

Porém, muito maior do que a vida é a fé. E este texto, fique tranquila, não é sobre Deus e religião. É sobre crença e milagre.

Gente que nunca vimos na vida rezou para que você ficasse. Primos, tios, irmãos, amigos de amigos dos nossos grandes amigos. Gente distante, que mora em outra cidade, outro estado, outro país. Gente pequena e gente grande. Gente comum e gente importante. Gente que acredita em santo, em espírito, em astros, em caboclos e pretos velhos.
Gente que não acredita em nada. Dezenas, centenas, milhares de pessoas por aí dividiram com seus pais e avós o pedido para que você, tão pequenina, vivesse.

E seu coração, já parado, voltou a bater.

Estas palavras são para que jamais esqueça a luta deste verdadeiro exército por você. Sua vida é (e sempre será) um pouco nossa também. Destes que não estarão na sua próxima festa de aniversário, na sua formatura da faculdade ou no seu casamento, de muitos que nunca vão cruzar seu caminho ou te dar um abraço, mas que vivem dentro de você.

Pelo nosso amor, por esta batalha de tantos pela sua vida, é que espero que faça deste tempo (não importa quantos pares de meses ou anos ou décadas) que ganhou de presente dos céus a nosso pedido uma oportunidade de ser luz. Que aproveite intensamente os seus dias. Que seja como estes que sonham quando nada mais é possível, destes que cantam e dançam como se ninguém tivesse olhando. Destes que estão sempre disponíveis ao acaso, destes que amam sem medo e recomeçam quantas vezes for preciso, destes que lutam pelos outros porque querer para si é pequeno e fácil. Destes que desejam sempre mais e que tecem com brilho os segundos de um dia qualquer. Que abraçam e beijam até cansar. Destes que pecam pelo excesso, que questionam, que incomodam, que sobem e descem as escadas pulando degraus, pulando problemas. Porque a vida é um sopro.

Um dia, talvez, você tenha medo do desconhecido. Ou do escuro.

Neste dia, lembre-se de que já morreu. Nada disso importa, Luíza.
Apenas viva. Por mim, por nós, por você.

luiza_foto

Com João Victor e Rafaela, seus irmãos, no dia em que você voltou para casa, após este “maio despedaçado” de 2015.

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5 Respostas to “Maio despedaçado”

  1. Edilena Candido Faria maio 25, 2015 às 7:27 pm #

    Ju, nem acredito que aquela linda menininha que conheci bebezinha é capaz de produzir um texto tão incrível é emocionante como este. Feliz de quem como seus lindos sobrinhos, recebe uma homenagem tão linda. Parabéns. Que Deus continue te abençoando com tanta sabedoria.

  2. Cibelle Camargo Neves Marassatti maio 25, 2015 às 9:55 pm #

    Jú, lindo e emocionante texto!! Chorei muito, senti sua emoção em cada palavra.. Parabéns, vc é perfeita em seus textos!!

  3. Erick Araújo maio 25, 2015 às 10:05 pm #

    Não tenho palavras. Só que você é especial demais!

  4. Renata Kulaif maio 26, 2015 às 12:52 pm #

    Juba, que texto mais lindo. É bem isso mesmo, a fé é capaz de coisas que, muitas vezes, achamos impossíveis. Cada vez mais acredito que NADA nessa vida acontece por acaso!
    Feliz por essas 3 estrelinhas aí da foto terem nascido em uma família tão iluminada!
    Sou sua fã!!!!

  5. Rafael Carvalho maio 27, 2015 às 3:49 am #

    Juuuu, olha como são as coisas… me encaixei em várias coisas do seu texto… o que estava longe, o que nunca deu um abraço na Luiza…. mas chorei com o que você escreveu. Parabéns por tamanha sensibilidade. Bjossss e saúde pra família sempre!

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